Dica nº 15 - Sobre o Sentido das Palavras

12/03/2018 - 13:10

Dica nº 15 - Sobre o Sentido das Palavras

Ter um bom vocabulário, usar as palavras de forma adequada ao contexto e à situação, ser capaz de utilizar algumas expressões de efeito durante um debate podem fazer toda a diferença. Podemos convencer e empolgar ou causar restrições e indiferença.

Basta ligar a TV no noticiário político para verificarmos a incrível habilidade que muitos de nossos representantes têm de, através de uma fala bem articulada, apesar de repetitiva em seu conteúdo e com muitos lugares-comuns, de manipular os fatos em direção aos seus interesses e conveniências.

Tal prática, que nos incomoda e abala nossa esperança de consolidação de uma sociedade mais acolhedora e igualitária, é antiga, vem dos tribunos gregos e romanos. Mas não será essa a direção que trilharemos.

O que fazer para adquirirmos um razoável domínio sobre as palavras, com quantidade, variedade e expressividade? Há pessoas que gostam de ler os verbetes dos dicionários. O hábito é curioso, mas não creio que decorar palavras ajude muito na construção do texto falado ou escrito. As palavras em estado de dicionário são frias, descontextualizadas, não revelam muito, apesar de no verbete encontrarmos a reprodução de frases de bons autores registrando seu uso.

O dicionário é uma importante fonte de consulta de palavras cujo sentido desconhecemos. Recorrendo a ele, mesmo que posteriormente à situação com que nos deparamos, poderemos compreender o significado da frase de que tivemos dúvida, ocasionando a incorporação da nova palavra ao nosso vocabulário.

A melhor maneira de nos sentirmos fortalecidos no agitado e estimulante mundo das palavras é o desenvolvimento do hábito da leitura. Nos jornais e revistas, a par do noticiário, merece atenção especial a leitura de editoriais, artigos de opinião, cartas de leitores. Nesses textos, de caráter argumentativo, deparamo-nos com exposições de ideias, análises e argumentos em defesa de uma concepção, de um entendimento, de uma tese.

Embora essa leitura já se mostre útil e enriquecedora, melhor ainda é nos habituarmos, prazerosamente, a ler livros. Já se disse que a leitura de um livro é a maneira mais barata de viajar: conhecemos novos lugares, pessoas, culturas. E enquanto lemos, assimilamos palavras e a gramática da língua, ou seja, os mecanismos através dos quais a frase e o texto se estruturam. Tudo com naturalidade.

Além da leitura, faz muito bem o contato com outros instrumentos de divulgação cultural: música, dança, cinema, teatro, exposições, museus, shows. E para fechar o ciclo, conversa, muita conversa, para falar e ouvir, concordar e discordar, sem radicalismos ou intolerâncias, para nos aprimorarmos como pessoas, para não nos afastarmos dos amigos, porque o melhor é sempre cultivá-los, criando raízes vigorosas com o grupo de que somos parte.

Chacrinha, o Velho Guerreiro, repetia à exaustão o bordão: "Quem não se comunica se trumbica". Ao seu modo, ele expressava uma grande verdade. Devemos nos preparar, com ideias oriundas de uma visão crítica do mundo em que vivemos, com eficiente domínio de vocabulário, com conhecimento da gramática de nossa língua, para conseguirmos expressar todas as nuances de nosso pensamento. Assim, seremos pessoas interessantes, profissionais requisitados, cidadãos participativos e bons comunicadores do que pensamos.

Feitas essas considerações, passemos a algumas noções importantes que envolvem o tema desta "dica":

1. ESTRANGEIRISMO - emprego de palavras, expressões e construções tomadas por empréstimo de outra língua. Trata-se de um processo de assimilação cultural.

Nem sempre os empréstimos linguísticos são vistos com bons olhos, já que muitos acreditam que eles podem ameaçar a soberania da língua. Não há necessidade, porém, desse tipo de preocupação.

Há estrangeirismos que já foram aportuguesados: abat-jour (= abajur); ballet (= balé); soutien (= sutiã); toilette (= toalete). Entretanto, há estrangeirismos (a maioria do inglês = anglicismos) que são usados em sua forma original, fazendo referência quase sempre ao universo da informática: backup; hardware; software; pen drive, check-in, design.

Embora não se deva ter aversão aos estrangeirismos neste mundo globalizado, é bom que se evitem os exageros. Se já houver na língua portuguesa uma palavra para expressar determinada ideia ou objeto, não há motivo para o estrangeirismo: for sale (= liquidação); delivery (= entrega); affair (= caso amoroso); dancing ( = discoteca); finesse ( = requinte); manager (= treinador).

2. NEOLOGISMO – nome dado a uma nova palavra criada ou a uma palavra já existente à qual se atribui um novo significado.

Exemplos: deletar, clicar, linkar, site, mensalão, panelaço, gato (= ligação elétrica), pistolão (= indicação por influência de alguém).

Os neologismos surgem em decorrência de novas necessidades de comunicação: desponta um novo conceito, cria-se um novo objeto, sem que já exista na língua uma palavra para designá-los. Então faz-se necessário criar essa palavra que falta.

A criação de neologismos é frequente na nomeação de novos equipamentos (smartphone, cupcake), em contexto coloquial (apê, mané), ou em expressões da linguagem coloquial (dar a volta por cima, fazer cera, dar um bolo).

3. ARCAÍSMO – é o nome que se dá a palavras, expressões e construções sintáticas que deixaram de ser empregadas no uso atual da língua. Muitas vezes, o arcaísmo ocorre em face do desaparecimento do conceito ou do objeto correspondente ao termo que o designava.

Exemplos: Vossa Mercê (= você); ceroula (= roupa de baixo); quiçá (= talvez); alcaide (= prefeito); aposentos (= quartos); boticário (=farmacêutico); magote (= grande quantidade); nosocômio (= hospital); á guisa de (= à maneira de).

Em certas linguagens especiais, as formas arcaicas sobrevivem, como na linguagem forense, nas conversas entre pessoas de idade avançada ou na linguagem literária, quando o autor deseja reproduzir a atmosfera de uma época antiga.

O uso em excesso de arcaísmos pode prejudicar a compreensão do texto. No entanto, os termos considerados arcaicos estão documentados nos dicionários. Tanto os neologismos quanto os arcaísmos demonstram o dinamismo da língua: novas palavras surgem, enquanto outas caem em desuso.

4. SINÔNIMOS – diz-se comumente que sinônimos são palavras de mesmo sentido. No entanto, é fácil verificar que as palavras não guardam exatamente o mesmo significado, daí a necessidade de escolhermos com cuidado a palavra que melhor se encaixa na frase que temos em mente. É preciso adequar a palavra ao contexto.

Exemplos:

lar, casa, residência, moradia - não têm exatamente sentido igual, embora se enquadrem numa mesma área semântica.

falar, dizer, afirmar, declarar, confidenciar,  contestar, exclamar - não têm exatamente sentido igual, embora sejam todos verbos dicendi ( = de dizer).

Os sinônimos se dividem em hiperônimos e hipônimos:

Hiperônimos – são os termos de sentido mais abrangente em relação àqueles considerados sinônimos.

Exemplos: móvel / mesa; talher / faca; instrumento / termômetro; equipamento / computador; eletrodoméstico / enceradeira; cetáceo / baleia.

Hipônimos – são os termos de sentido mais específico em relação àqueles considerados sinônimos.

Exemplos: gripe / doença; banana / fruta; alface / verdura; sardinha / peixe.

Obs. Na frase: "O hospital recebeu vinte termômetros. Esses instrumentos serão encaminhados à clínica pediátrica.", as palavras destacadas foram empregadas como sinônimos, mas a segunda é um hiperônimo em relação à primeira.

5. PARÔNIMOS – palavras graficamente semelhantes. Em razão dessa semelhança, é frequente verificar-se nos textos algumas confusões de sentido, trocando-se umas pelas outras. O recurso ao dicionário e a atenção são suficientes para resolver o problema.

Exemplos: descriminar (= inocentar) / discriminar (= distinguir); vultoso (= imenso, volumoso) / vultuoso (= inchado); despercebido (= desatento, distraído) / desapercebido (= despreparado, desprevenido); intemerato (= íntegro, puro) / intimorato (= corajoso, destemido); eminente (= elevado, excelente) / iminente (= imediato, breve); ao encontro de (= em direção a, em favor de) / de encontro a (= em sentido oposto a, em contradição com).

6. SUFIXOS – há palavras com o mesmo radical cujo sentido se diferencia pelo acréscimo de determinados sufixos.

É o que ocorre com os sufixos – DOR/TOR (que indicam aquele que pratica a ação) e - DOURO/TÓRIO (que indicam o lugar onde se pratica a ação expressa no radical).

Exemplos:

-sufixo dor: bebedor / provedor / corregedor / babador / aspirador / assustador / humidificador / vasodilatador / criador

- sufixo tor: auditor / delator / cobertor / infrator / interruptor / escritor/ agricultor

- sufixo douro: bebedouro / babadouro / respiradouro / matadouro / miradouro /  criadouro / coradouro (= lugar onde se põe a roupa para corar)

 - sufixo tório: dormitório / refeitório / auditório / reformatório / parlatório / ambulatório